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Notícias Magazine Janeiro 2000
"DR. SOUND"
O bom filho à casa torna

 

 

Faz do vulgar lixo a matéria-prima para a sua arte. A partir de objectos considerados imprestáveis, desperdício, inutilidades, constrói esculturas sonoras com as quais actua em palco. João Ricardo gosta que lhe chamem "Dr. Sound". Radicou-se em Berlim há quase 20 anos, e aí tem feito uma carreira invulgar. Mas, como bom filho, à casa tornou e para nos deixar de boca aberta.

Começou a construir esculturas sonoras muito cedo, era ainda adolescente. Gostava de se passear pela praia e aí recolhia muitos dos materiais que depois soldava, colava, furava e transformava, até dar corpo aos sonhos que 1he enchiam a alma. João Ricardo Barros de Oliveira nasceu em Viana do Castelo e aí viveu até aos 23 anos, altura em que decidiu correr mundo e assumir a paixão da sua vida: a música, feita sem rede e sem manual de instruções.

Sem rede porque nunca aprendeu de forma ortodoxa, nem quer, uma única nota; sem manual de instruções porque procura incessantemente novos sons, novas articulações musicais, novos caminhos artísticos e faz dessa luta a missão da sua vida.

?Em Viana comecei a sentir-me sufocado, abafado, tolhido. Queria expandir, pesquisar, conhecer novas sonoridades. Tinha uma grande necessidade interior de procurar e encontrar o som perdido que havia dentro de mim. Gosto de dizer que sou casado com o som e completamente contrário ao divórcio. Ali tinha um acesso muito limitado aos discos, livros, revistas, a todo o material ?didáctico? que me podiam realmente interessar. Sentia-me como um peixe fora de água. Quando surgiu a oportunidade, parti sem hesitações. Primeiro para Nova Iorque, França e Inglaterra. Estive em muitos outros países mas acabei a viver em Berlim?, diz. Quando vemos o trabalho deste artista não temos qualquer dificuldade em perceber porque é que uma cidade tão cosmopolita 1he serviu na perfeição, o fez sentir-se em casa. João Ricardo estava certamente fora do seu tempo. E do seu meio.

O ?coca-bichinhos? do lixo

Há quem trabalhe com o dispendioso mármore, com o eterno granito, com o delicado barro, com o frio aço, com o ferro ou com a madeira. Este artista usa o vulgar e muitas vezes repelente lixo, com igual convicção. Talvez por ter estado em estreito contacto com um povo metódico, organizado e tecnologicamente desenvolvido, talvez por ter dentro de si essa invulgar capacidade; o que é um facto é que o Dr. Sound pode usar materiais rejeitados e pouco nobres mas os resultados finais estão muito longe de ser pouco elaborados, ?mal amanhados?. Dotado de um espírito empreendedor e perfeccionista, tão frequente nos ?coca-bichinhos?, o artista faz dos objects trouvés verdadeiras obras de arte, que para além de bonitas, são musicais. O exercício de minúcia, método, paciência e capacidade tecnológica resulta em peças de alta qualidade estética e construtiva.

Macrobiótica, parabólica, polaroid!

?Macrobiótica?, ?parabólica? e ?polaroid? são três conceitos únicos muito próprios do artista, três realidades que gerem toda a sua actividade e que 1he permitem exercer uma ?acção directa?. Decompondo a palavra ?macrobiótica? obtemos algo que pode ser traduzido por ?ver com os dois olhos e em grande?; parabólica significa que o artista está atento a tudo o que o rodeia, tal como uma antena que capta tudo, de todas as direcções; polaroid pretende expressar a ?fotografia? imediatista que João Ricardo tira aos objectos que encontra. Quando os encontra, sabe instintivamente o que pode arrancar deles, com que outros elementos os deve juntar, que resultado final podem originar. O processo é complexo. O som por si só nunca 1he interessou. Ao ?Dr. Sound? interessa igualmente explorar a parte plástica e escultórica dos objectos que cria. ?Não me basta que resultem sob o ponto de vista plástico se o som que proporcionam não me interessa; nem que sejam válidos como instrumentos se não resultam enquanto objectos escultóricos?.
Velhos motores de máquinas de massagem, bules de água, mecanismos de relógios, tubos de chuveiro, partes de um cinto-cartucheira pertencente outrora sabe-se lá a que caçador, um velho cortador de ovos metálico, formas de sapatos, balanças desconjuntadas, formas de bolo e tachos amassados, cordas de guitarras ou elementos retirados a máquinas de sorvetes, entre muitas, muitas outras coisas, estes os ingredientes usados na construção de complicadas maquinetas sonoras.
Dêem a João Ricardo porcas, parafusos, detectores de passagem, fios eléctricos e pouco mais e ele prova sem dificuldades que afinal as velhas campainhas de telefone, as molas de estore, os foles para a forja ou os suportes de esqui, podem fazer música. E que música.
É importante dizer que, destes apetrechos todos, ?muito poucos foram comprados. São quase todos recolhidos de lixeiras, da rua, da natureza; outros são me oferecidos por amigos?. Em saldo, daro, que os restos de colecção e os fins de série, para além de serem muito mais baratos, têm mais encanto. O músico gosta de reaproveitar o que a sociedade rejeita, desvaloriza ou renega. Tira-1hes a tal ?polaroid? e transforma-as, num processo que nunca fica terminado. ?A ideia surge de imediato, num flash. O objecto vai adquirindo formas e não formas?. João Ricardo ensaia as potencialidades sonoras da escultura que nasce e imagina como podem ser usadas nos seus espectáculos.

O bom filho à casa torna

A cidade que o viu dar os primeiros passos assistiu há três anos atrás à sua primeira performance musical em terras lusas. Foi impossível não sorrir perante a orquestra de cãezinhos de peluche electrificados que ladravam em sincronia; não ficar espantado com as sonoridades amplificadas de uma série de lápis de carvão a serem afiados; não ser tocado pelos vocalizos da sua acompanha checa, Jitka Ríhova, que em palco acompanhava os sons produzidos por uma parafernália de instrumentos não convencionais com sóbrios estalidos de língua. O espectáculo ?Lixo-Luxo-Póetico? foi um sucesso. O artista sentiu-se recompensado.
Volvidos estes anos e depois de um notável percurso profissional que o levou a algumas das salas mais importantes do país, entre as quais a do Rivoli Teatro Municipal já por duas vezes no último ano, o Centro Cultural de Belém e a Culturgest, o artista regressou em grande força com uma exposição de esculturas feitas por si, ?Espaço 15:03?.
?Não é propriamente uma antologia. Em casa deixei muitas outras obras que poderiam ter sido mostradas também, mas já aqui estão muitas obras. São peças frágeis, dificeis de montar e desmontar, pesadas e volumosas que não é fácil trazer de Berlim... de bicicleta?.
À Feronka?, ?Parabólica?, ?French Food?, ?Passagem de Nível?, ?Gira-sol?, ?Locomotiva?, ?Lampreia?, ?Mola?, ?Algas?, ?Serpente?, ?Nombre d?Images?, ?Batedeira?, ?Bicho da Seda?, ?Observador-Observado?, Flamenco?, ?Balança?, ?Pianol?Art? veio juntar-se um outro, criado precisamente durante a montagem da exposição no Museu Municipal de Viana do Castelo: a ?Pian?Aranha?.
Trata-se de um instrumento construído a partir das teclas de um piano velho oferecido, às quais prendeu invisíveis fios de nylon. O aparelho que amplifica o som está escondido dos olhos de quem passa e desconhece o facto, mas os fios estão colocados num local em que o visitante é praticamente obrigado a tocar inadvertidamente com o braço, com o cotovelo, com a ponta do casaco. Sempre que os fios são mexidos, o som ecoa, deixando os seus inesperados ?interpretes? atónitos. Este é um bom exemplo da mutação das esculturas sonoras. Numa primeira fase, o ?Piana?Aranha? tinha os seus fios de nylon presos a um grosso cinto de couro e foi envergado e manuseado por uma criança no Rivoli durante o concerto ?Orquestra Aspirador?. Os sons cristalinos são os do piano, a forma essa, assemelha-se a uma estranha harpa sem armação, que só os olhos mais atentos detectam.

Tratador de sons

Para melhor afinar os instrumentos e retirar deles as suas máximas potencialidades, ?Dr. Sound? usa um estetoscópio recuperado na lixeira das traseiras de um hospital em Berlim. A bata branca que veste também foi encontrada e ainda tem, escrito por dentro, o nome do médico que a envergou. Uma forma original de lutar contra o consumismo desenfreado das sociedades actuais; uma forma de marcar, também pela construção de um personagem, a imagem pessoal do artista. Na cabeça gosta de usar um chapéu negro de 1ã, parecido com as ?rastas? dos seguidores do reggae, oferecido por um amigo, o Anthony Millionaire, ?simboliza o ninho das ideias, que chocam e se transformam em objectos de arte sonora?. João Ricardo nunca se separa de certos objectos que compõem o seu personagem. Fazem parte da profunda transformação interior que protagoniza quando está em palco.
Quando se trabalha com instrumentos que mudam, se transformam e evoluem, é dificil conseguir fazer dois espectáculos iguais. A improvisação é um dos caminhos escolhidos pelo autor-escultor, mas tudo está estudado quando actua. ?Sou um rechercheur du son, trabalho com partituras feitas por mim e para mim, que leio através de sinais que só eu consigo entender. Se os outros as quiserem interpretar tenho que explicar o que simbolizam os sinais que inventei?. Mais uma vez, sem manual de instruções.

Inutilidades preciosas

As rebarbadeiras, chaves de fendas e alicates, berbequins, serrotes e martelos, ferros de soldar, porcas, parafusos, e fio eléctrico, entre muitos outros materiais, são companheiros de que o artista não se separa. Na sua casa-atelier de 60 m2 em Berlim, ?amontoam-se peças à espera de um golpe de inspiração, obras prontas, outras desmontadas por razões de economia de espaço. Até na cama encontro porcas. Precisava de ter um espaço muito maior para poder trabalhar?. Com efeito, algumas das suas esculturas sonoras têm dimensões consideráveis. Apesar do aspecto robusto que apresentam devem ser manuseadas com cuidado. Debaixo de serras de ferro industrial podem esconder-se delicados sensores, frágeis mecanismos, minúsculas peças de relojoeiro, estridentes campainhas de bicideta ou de telefone.
João Ricardo ama as suas peças e a simples ideia de que alguém as possa partir é mais do que suficiente para 1he tirar o sono. Por isso assinala as mais sensíveis e prefere que as experimentem debaixo da sua atenta orientação. ?Não gosto de exposições enquanto acontecimentos estáticos. Tem que haver inter-actividade, acção directa, a intervenção e o envolvimento do espectador, num processo em que ele vê, mexe e ouve. Agrada-me pensar que as pessoas, de uma maneira geral, não conseguem resistir ao apelo dos meus instrumentos e sentem vontade de 1hes tocar. É um grande estímulo. Preciso desse feed-back?. Foi exactamente isso que obteve do grupo de turistas californianos que visitava a exposição durante a entrevista; cada peça constituía uma caixinha de surpresas, cada som arrancado aos tubos, chocalhos e tachos, uma razão para aplaudir. Ninguém saiu do Museu sem tirar uma ?foto de família? com o autor.
Uma das áreas de intervenção favoritas do artista são os workshops que tem feito com crianças. Depois de ter estado duas semanas no Rivoli e outras duas no Centro Cultural de Belém, a construir obras sonoras com crianças e para crianças, numa iniciativa que intitulou de ?O parafuso perdido no aspirador?, deu-1hes a oportunidade de apresentarem as suas criações num espectáculo que agradou a todas as partes envolvidas. No final dos dois concertos, foi engraçado ver a forma convicta como os dez ou quinze jovens ?artistas? distribuíam os seus autógrafos a uma plateia surpreendida. Quem sabe se de entre algum deles não sairá no futuro um nome sonante no panorama nacional ou internacional?

Espírito de "engenhocas"

A criatividade humana não tem limites. A de ?Dr. Sound? parece inesgotável. Depois de ter encontrado uns curiosos grilos cantantes em latão numa banca de um vendedor ambulante chinês, João Ricardo não descansou enquanto não encontrou forma de comprar 800, sim leu bem, 800 mecanismos destes. Mandou-os vir directamente da China, para serem mais baratos e instalou-os de seguida no interior de uma velha igreja berlinense, posta completamente às escuras. Ligou os insectos metálicos a sensores de luz, distribuiu pelos visitantes algumas lanternas de mineiro e convidou quem apareceu, a compor as suas próprias melodias. À medida que as pessoas se passeavam pelos circuitos marcados no chão com fita adesiva reflectora, com as lanternas de mineiro acesas na cabeça, os sensores iam disparando e o canto dos grilos ia evoluindo ao sabor da caminhada. Nalguns locais de forma suave, noutros com um verdadeiro ribombar. ?Grilos Europeus?, assim se chamava esta instalação interactiva, resultou numa explosão de luz e de som que não deixou indiferente quem nela participou. Talvez dentro em breve a possamos também ver em Portugal.
Na Expo 98 surpreendeu crianças e passeantes com o seu workshop intitulado ?Clara-Bóia?. Agora, partiu de Viana com a certeza que vai ser dificil esquecerem o ?Espaço 15:03?. Para o artista, ?lixo? é um conceito que não existe. ?É uma palavra absurda. Quero provar que aquilo que já não serve pode ser útil, precioso a outras pessoas. Não se trata propriamente de reciclar, mas sim de reconverter, recriar, reaproveitar, reutilizar. O chamado lixo é para mim como uma biblioteca, um arquivo, uma enciclopédia, que permite leituras e tem inscritas as memórias do passado. A sociedade tornou-se demasiado descartável e o lixo retrata-a na perfeição. É o seu espelho fiel, afirma convicto. Concorde-se ou não uma coisa é certa: as chamadas inutilidades são tudo o que este original músico-escultor precisa para criar obras surpreendentes, que são a principal motivação da sua existência. A prova de que ?lixo? é aquilo que fazemos dele ficou feita, de uma vez por todas.

Carla Afonso