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Tem um olhar vivo e irrequieto, apesar dos seus 40 anos. Define-se a si próprio como músico-escultor e vive rodeado de materiais que recolhe, criteriosamente, em lixeiras e no ferro velho. Nascido em Viana do Castelo, João Ricardo Barros Oliveira partiu cedo à descoberta de outros universos. Radicou-se em Berlim, há mais de dez anos. E aí descobriu a inspiração de que precisava para elaborar as suas esculturas de materiais reciclados, que converte em instrumentos musicais. «Sempre me senti fascinado pelo lixo, a minha grande matéria-prima para produzir peças de arte musical», explica-nos. «Os contentores das ruas são as minhas bibliotecas e enciclopédias, é através deles que faço as minhas pesquisas sonoras.»
Aposta na criatividade
O seu lema é a acção directa: «Criar passa por pôr em prática um impulso, que depois é explorado e trabalhado, até tornar-se visível e permitir um diálogo com quem vê e ouve o produto final.» Transformar lixo em arte exige uma dinâmica própria, a que as crianças aderem facilmente. Foi com elas que os trabalhos deste artista tiveram aplicação prática, em inúmeros workshops e festivais internacionais de música. A convite de Simoneta Luz Afonso, que representa a presença do Pavilhão de Portugal na próxima exposição mundial, na cidade alemã de Hanover, João Ricardo está agora a concluir uma série de instrumentos sonoros, com a participação de 15 crianças da Casa Pia de Lisboa.
Lixo ou luxo?
«Ele é um 'stôr' animado», diz Filipe Pontes, 14 anos. «Não esperava que pudéssemos fazer estas coisas com o lixo. Construímos instrumentos diferentes dos outros, mas que também podem tocar.» É desta forma que os miúdos descrevem a sua participação no workshop coordenado pelo artista português, Enquanto fazem uso do berbequim e das serras, os miúdos vão pensando na forma que terá mais uma das várias partes da orquestra ? em que serão também protagonistas. «Começamos logo às dez da manhã e acabamos às sete da noite», lembra Manuel Alexandre, há quatro anos na Casa Pia. João Ricardo confirma: «Este tipo de experiências é muito gratificante, porque inventamos instrumentos que geram uma familia de sons.» O autor deu-se a conhecer ao público português num concerto inspirado na obra Os Sete Pecados Mortais, de Kurt Weill e Bertolt Brecht. Hoje, garante que a sua arte é lusitana, mas que o seu porto de abrigo é Berlim.
Clara Soares
Arte sonora Alguns trabalhos do musico-escultor João Ricardo jé foram ouvidos e vistos aquando da sua passagem por Lisboa, na Expo'98, com o concerto CLARA-BOIA ? O parafuso Perdido no Aspirador, dirigido a crianças. O Pavilhão de Portugal apostou agora no seu projecto e avançou com a ideia de um Concerto de Esculturas Sonoras, em colaboração com a Casa Pia de Lisboa, para a Expo'2000. Depois de construidos os instrumentos sonoros, será criada uma peça musical (pelo compositor Luis Tinoco) a apresentar em Hanôver. A divulgação publica da peça terá lugar a 31 de Maio, no Teatro Trindade, em Lisboa.
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